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Escritos esparsos...



Viagem

Queridos leitores,

Sei que ando meio sumida e vou ficar ainda um pouquinho mais, de 30/01 a 18/02...

É que estou saindo de férias.

Prometo ver, ouvir, tocar, cheirar, provar, sentir e pensar muito, nesse período. Quero, assim, recolher as melhores impressões dos lugares por onde eu andar, para depois voltar cheia de inspiração e escrever bastante neste blog!

Obrigada pelo carinho e pela atenção de sempre.

Um beijo a todos

E até a volta!

Izilda (Zi)

PS. Se puderem/quiserem, continuem aparecendo, mesmo durante minha ausência. Adoraria saber que vocês revisitaram meus textos mais antigos...

 



Escrito por Izilda às 21h10
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Salva por um Cão

Quando o trânsito parou, ocasionalmente, na Avenida Liberdade, seu olhar descomprometido pousou nos dois mendigos deitados na soleira do imponente prédio da Casa de Portugal.

Eram um homem e uma mulher, de idade e identidade desconhecidas, tão sujos e maltratados pela sorte, que, apenas vagamente, lembravam sua condição de seres humanos.

Uma única nota destoante, no meio daqueles escombros: o cachorro magro, de olhos meigos e doces, que, embora imóvel como seus companheiros de infortúnio, ainda se encontrava inteiramente preservado.

Simpatizou de imediato com o cão e teve vontade de afagá-lo.

Mas logo desviou seu olhar para o homem, que mais parecia um cadáver contraído entre secretos pensamentos e ossos aparentes, completamente alheio às buzinas dos carros e às pessoas que passavam pela rua.

A mulher não. Embora também magra e encolhida, ela acompanhava o movimento com arregalada curiosidade, como se dele tirasse o único alento para viver.

E a imaginação da moça, protegida pelo conforto de seu carro, voava longe para adivinhar que tipo de sentimento provocava naquela mulher aquela observação atenta. Por acaso, o que via lhe causaria medo? Algum tipo de revolta? Ou apenas o inconseqüente prazer da mera diversão?

Dali de sua redoma, a moça podia conjeturar à vontade, tirar conclusões, proferir julgamentos...

Porém, num certo momento, a mulher acabou descobrindo aqueles olhos invasores que ameaçavam sua frágil intimidade.

Baixou imediatamente a cabeça.

A moça também.

Que espécie de pudor era aquele que as impedia de vasculhar abertamente suas diferenças?

Que estranha timidez as fazia corar e as obrigava a desviar seus olhares?

Nenhuma responsabilidade tinham por seus destinos tão diferentes... (será mesmo?).

A moça nada sabia sobre aquela mulher. Talvez fosse mais jovem do que ela, mais generosa, mais sábia... Ou, talvez, não. Poderia ser mesmo até alguém desprezível, que bem merecesse aquela sina... (como se alguém pudesse merecer aquela subvida de farrapos!).

O  que saberia dela aquela pobre infeliz? Por que não conseguia encará-la?

O homem continuava ali, ao lado do cão, jogado como um pacote amarrotado.

Mas a presença acusadora daquela mulher calada  a incomodava de um jeito...! Seriam seus olhos inquietos, que mendigavam alguma resposta para tanto abandono?

Continuavam se olhando de esguelha.

E agora era a moça que já não suportava a constrangedora sensação de invasão.  O que estaria pensando sobre ela aquela mulher? Que juízo faria de sua acintosa existência?

Se quisesse, poderia até agredi-la, matá-la... (será que teria forças?)

Por um segundo, até desejou isso para não continuarem assim, indefinidamente paralisadas pela pungência daqueles olhares penetrantemente fugidios.

Porém,  o tráfego, felizmente, começou a avançar e se encarregou de desfazer aquela insuportável tensão.

À moça, antes de se entregar à total indiferença de seu caminho, restava uma difusa sensação de culpa e de impotência.

Ainda podia ver,  com um ligeiro constrangimento, aqueles cabelos desgrenhados pelo espelho retrovisor, até que percebeu que o cachorro aproximou-se da pobre mulher e, carinhosamente,  começou a lhe lamber as faces... 



Escrito por Izilda às 09h46
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Telemarketing...

O telefone tocou.

Do outro lado da linha, com um esfuziante e artificial bom-dia, um rapaz pergunta pelo Doutor Álvaro... de Souza... Lima, titubeando bastante para pronunciar nome e sobrenome, sem errar.

Dona Heloísa imediatamente percebeu que se tratava de "telemarketing" e, com um jeito brejeiro, perguntou:

- Quem gostaria de falar com ele?

- Um amigo, respondeu o moço, de pronto.

- É uma pena, mas não vai ser possível, disse ela.

- Ele não está em casa?

- Não.

- A senhora poderia me dizer a que horas posso encontrá-lo?

- Humm....vai ser difícil.

- A senhora é o quê dele? Insistiu o moço.

- Moradora. 

- Como???

- Moradora. repetiu ela.

E acrescentou:

- O seu "amigo", Doutor Álvaro de Souza Lima, hoje em dia, foi reduzido a nome de rua. Da minha rua!!!

E o pobre rapaz, para salvar sua dignidade, tratou depressa de desligar, deixando a mulher quase se engasgar de tanto rir...

 



Escrito por Izilda às 21h40
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Pausa para brincar...ou aliterando P e B

Passeando, bem emperiquitada, a Pausa, deparou-se com o pobre do B, abatido e pesaroso, batendo à porta do P, para pedir permissão para pisar na Praça.

Ela sabia que bastava uma piscadela e um palavrear bonito para balançá-lo um pouco e, sem pestanejar, botou espertamente a boquinha no trombone.

- Buenas, bonitão! Botando banca nessa pose blasé?

- Buenas, princesa! Eu bem que precisava botar uma banca. Porém, minhas barbas brancas e meu epíteto de plácido bonachão me impedem de me aproximar de pessoas importantes como o benemérito P.

- Bem que percebi que seus problemas pessoais o impedem de abordar peremptoriamente o palhaço do P. Pára de bancar o passivo. Por que pensa que o P é uma pessoa especial?

- Porque o P é um político batuta e competente, permanentemente parabenizado por seu trabalho. Sabia que ele brindou o povo com um parque público, bem bonito, para os pequenos peraltas do bairro? 

- Pois bem! Pare de se depreciar, boboca! Parece óbvio separar pedaços do bairro para os pirralhos brincarem bastante! Os parques e as praças pertencem ao povo e não podem parecer propriedades do sabichão do P, que só brindou a população com esses equipamentos públicos por beirar sua obrigação! Ele é pago pelo povo para botar a cabeça para trabalhar. Pense a respeito!

- Bem... prometo pensar bastante sobre o problema... mas, passando à parte principal,  parece que você me apelidou de "bonitão", balbuciou o B, abaixando a cabeça, ruborizado.

- E parece que você me apelidou de "princesa", completou a Pausa, piscando voluptuosamente. 

- Po...poderíamos bater um papo na padaria, bebericando um bom "Porto" ou uma bebida especial? Propôs o B, titubeante.

- Combinado! Lá poderemos também pedir uns pasteizinhos ou uns bolinhos de bacalhau. Pegue no meu braço e me acompanhe, proclamou a Pausa.

E, bem espertinha,  complementou:

-Para brindar, pode esperar que roubarei um belo beijo apaixonado...

Porém, o P, bem aborrecido, abominando tal papinho malparado, abriu abruptamente a porta e acabou batendo boca com a Pausa, que proferiu palavrões impronunciáveis.

A princípio, o B bambeou um pouco, mas depois, passivamente, parou de pé, petrificado.

A Pausa, possessa, pegou a bolsa e a sombrinha e partiu para o primeiro boteco do pedaço, onde bebeu umas batidas de carambola, brindando à sua própria beleza e bravura.

Depois, bastante embriagada, acabou nos braços do primeiro Parágrafo que passou pelas bandas do Bixiga ...



Escrito por Izilda às 09h03
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Feliz 2008!

O Ano Novo quase alcançava o velho e ali estava ela, descalça na praia.

Estava completamente só entre tantos rostos alegres e esperançosos, perdida na algazarra das roupas brancas, dos brindes e das luzes no céu.

O mar, em seu vai-e-vem sem fim, parecia pouco se importar com tantos desejos e esperanças em mágicas transformações.

Mergulhados  na água inconstante, seus pés procuravam um canto só seu para ficar  e, enquanto os minutos corriam rápidos, seus olhos, fixos na mais profunda escuridão, encontravam suas próprias luzes.

À meia noite, fogos e rojões espantaram os males e seduziram os olhares das pessoas que se abraçavam e cantavam calorosamente.

Ela, um tanto afastada, apenas sorriu, orgulhosa de si. 

Era a primeira vez que passava a virada do Ano em sua própria companhia.

Agora sabia que estava pronta para receber as alegrias e os desafios que teria pela frente.  

Por isso, quando, a seguir, reencontrou a família e os amigos,  brindou alegremente à vida e ao tempo, pelas fartas possibilidades de aprendizagem, crescimento e regeneração...

 



Escrito por Izilda às 18h58
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