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Escritos esparsos... Arco-íris
Não conseguia entender como tudo havia mudado tanto, em tão pouco tempo. Em alguns momentos, sentia até um ligeiro estranhamento. E se questionava, maravilhada, se aquilo não passava de um sonho. O que faz um acontecimento ou alguém se tornar tão importante, em meio à avalanche da rotina e da mesmice? Por que alguns eventos e pessoas passam pela vida sem deixar marcas significativas, enquanto outros, ao contrário , são capazes de transformar, completamente, roteiros já traçados, padrões estabelecidos e até decisões tidas por irrevogáveis? Estava longe de conseguir responder. Mas agora confiava. Havia mesmo um pote de ouro no fim do arco-íris. E tudo o que sabia era que já não podia mais imaginar sua vida sem a luz e sem o brilho daquelas cores. Escrito por Izilda às 01h47 [ ] [ envie esta mensagem ] Canjica Ao ouvir aquele alô ao telefone, já pude perceber sua alegria. A razão era singela, como o são, na essência, todas as grandes felicidades. Fizera canjica! E me contava, generosamente, todos os detalhes; de como havia ficado uma delícia, de como seu marido havia gostado; de como, enfim, já se virava tão bem na cozinha, a ponto de preparar até canjica, como se isso fosse a coisa mais difícil do mundo! Seu entusiasmo me contagiou. Perguntei-lhe se havia acrescentado canela e leite de coco à receita, como fazia minha avó, quando eu era criança. Ela me respondeu que canela, sim, mas que nem sabia que poderia levar leite de coco. E acrescentou, confiante, que, da próxima vez, iria experimentar essa nova versão. Desligamos amorosamente, como sempre. Minha filha toda feliz, do lado de lá, e eu, sozinha e cheia de saudade, de mim e de todos, do lado de cá. Foi então que me dei conta de que, para acalentar meu coração, eu não precisava mais do que um prato de canjica... Escrito por Izilda às 17h47 [ ] [ envie esta mensagem ] Mulheres de Meia Idade Pode parecer uma autoconsolação, porém, todas as mulheres “cinquentonas “ que conheço estão muito bem, obrigada.
Alegres, autossuficientes, bonitas, sensuais, na maior parte das vezes, dão de dez a zero em muita garotinha de vinte e poucos anos. Sabem e fazem o que querem. E sabem muito bem querer tudo a que têm direito.
Foi-se o tempo, graças a Deus, em que uma mulher de trinta anos era uma recatada senhora; uma de quarenta, uma matrona e uma de cinquenta uma decrépita vovozinha.
Agora, bem no meio da meia idade, a mulher dispõe de uma infinidade de recursos internos e externos para encontrar sua melhor performance.
Cuidados com o corpo, ginástica, alimentação, antioxidantes e vitaminas, cirurgias plásticas, lipoaspiração, cremes maravilhosos e controle alimentar, podem garantir a permanência de um corpo saudável e esteticamente em forma.
De outra parte, não se pode negar que a sociedade ocidental evoluiu rapidamente, no sentido de absorver as árduas conquistas da mulher, garantindo-lhe, atualmente, um espaço jamais outrora imaginado.
Que bom poder vê-la, nos dias de hoje, saindo sozinha, enfrentando a vida com seus próprios recursos, frequentando bares e cinemas, participando ativamente de seu meio...
E, embora ainda sofra, vez por outra, aqui e ali, algum resquício de preconceito, é, de qualquer modo, maravilhoso saber que a mulher conseguiu ampliar seus horizontes e que o tempo pode passar, sem que isso possa significar, para ela, uma condenação.
É inegável que, com o avançar dos anos, muitas transformações orgânicas ocorrem e se fazem sentir como verdadeira limitação: o corpo já não é tão ágil nem tão esguio, a memória e a paciência nem sempre respondem como gostaríamos, mas os ganhos são também muitos e variados.
Aprendemos a ver a floresta, sem nos determos exclusivamente na árvore, evoluímos emocionalmente, ficamos mais seletivas e conscientes em nossas escolhas, aproveitamos melhor cada minuto da vida.
Também não posso negar que, vez por outra, somos atacadas por um sentimentozinho de tristeza pela perda da tão valorizada juventude... São momentos em que brigamos com nosso corpo; com nossos fios de cabelo branco que, insistentemente, querem aparecer; nossos pés de galinhas; gordurinhas salientes; com a lei da gravidade...
Mas e quando éramos adolescentes? Também rejeitávamos os seios que insistiam em brotar, as espinhas que apareciam sempre que tínhamos uma festa, o jeito desengonçado e o rubor inesperado que não conseguíamos ocultar quando mais queríamos...
Quando adultas, muitas dessas dificuldades desapareceram, mas nossa presteza de gestos e movimentos, nossos corpos esbeltos e bem feitos, nem sempre sabiam desfrutar da verdadeira profundidade e sabedoria do significado de cada nova experiência.
Vivendo e aprendendo.
Hoje, percebo que a vida é um longo processo em que nos aprimoramos, dia após dia. Com toda a certeza, apesar de meu corpo já não ser a maravilha de quando eu tinha vinte e poucos anos, hoje sou uma pessoa muito melhor.
Uma mulher não é apenas um corpo.
Não quero fazer apologia ao feio, mas a beleza é muito mais do que formas perfeitas ou um rostinho bonito.
É por isso que eu acho as mulheres maduras o máximo. Ainda cuidam de sua beleza exterior e, na maior parte das vezes, são extremamente enriquecidas pelas vivências que acumularam ao longo da vida. Isso é o que eu chamo de beleza inteira, consolidada, por dentro e por fora...
É claro que há também as feias de meia idade... Aquelas que não mais se cuidam e só se lamentam... São pessoas amargas, insuportáveis...Mas, isso há em todas as idades.
Eu, particularmente, acho que ganhei muito com o passar dos anos. Sinto-me, hoje, muito mais segura, muito mais mulher. E sei que esse meu sentir foi construído aos poucos, passo a passo, através do constante contato com minha feminilidade, nos diversos papéis que exerci em minha vida, coisa que não se adquire, de uma hora para outra, mas se conquista.
Assim como eu, conheço várias mulheres que foram se aprimorando, através das vivências; de verdes, passaram a maduras, ou seja, estão no ponto, no apogeu de seu poder feminino, prontas para enfrentar o que lhes vier pela frente.
Não são mais meninhas superficiais. Não são mais mulheres inexperientes. São mulheres forjadas pela vida, enriquecidas por suas venturas e desventuras, aprimoradas, prontas, maduras, enfim.
Talvez por isso seja tão impróprio chamá-las de “mulheres de meia idade”. Melhor seria dizer delas : mulheres de idade inteira. De "inteiridade". Ou de plena identidade... (Escrito em São Paulo, aos 27 de janeiro de 2001)
Escrito por Izilda às 15h45 [ ] [ envie esta mensagem ] Tulipas Era um vasinho pequeno, elegante, original. Nele, duas tulipas lilases, muito fechadas. Em menos de meia hora, começaram a desabrochar. No dia seguinte, fiquei extasiada: estavam no esplendor de sua formosura! Adentraram, porém, o terceiro dia de existência com os primeiros sinais de debilidade e, aos pouquinhos, foram murchando, murchando...até fenecerem por completo. Duraram pouco, é verdade, mas enfeitaram tanto a minha vida! Aprendi com as tulipas que o que realmente importa não é o tempo de duração das coisas, dos acontecimentos, das pessoas, mas a beleza, o perfume e a delicadeza que oferecem, enquanto estão vivos em todo seu apogeu. Como aconteceu com elas, tudo se vai, a seu tempo. Apenas a lembrança fica. E essa ninguém rouba de nós...
Escrito por Izilda às 04h37 [ ] [ envie esta mensagem ] Aromas da tarde... Como livres borboletas, Já dançavam em seus sonhos, Em plena tarde de sol.
No entanto, eram crisálidas Escondidas no casulo.
E o dia apenas raiava... Escrito por Izilda às 18h24 [ ] [ envie esta mensagem ] FARTURA
Sentia que agora tudo lhe extrapolava com incomparável fartura.
Suas noites, ainda que insones, nunca mais tinham sido vazias de sonhos
Nem seu rosto desprovido de sorrisos... ou de lágrimas.
Trazia nos olhos a profundidade do desejo e da dúvida
E nos braços o calor intenso do abrigo ilimitado.
Também tinha medos exagerados,
E fantasias loucas, desmedidas.
Mas, o melhor de tudo é que, enfim, sentia-se viva. Escrito por Izilda às 15h17 [ ] [ envie esta mensagem ] Cumplicidade Ponto por ponto, Teciam a trama da cumplicidade. E havia tanta entrega naquele mister, Que, ainda que o manto não lhes cobrisse Mais que os joelhos, Já lhes aquecia a vida Por inteiro... Escrito por Izilda às 13h03 [ ] [ envie esta mensagem ] Hoje... (À moda de Leminski)
O futuro está no escuro. Prefiro ser reluzente, no presente! Escrito por Izilda às 01h19 [ ] [ envie esta mensagem ] Descobertas Haveria abrigo mais aconchegante do que aquele? Remédio mais eficiente? Serenava a alma, aliviava as dores, dissipava os medos. Não sabia se gostava mais de oferecer ou receber. Mas descobrira que era maravilhoso quando havia troca. Nem precisava ser efusivo. Podia, perfeitamente, ser silencioso, discreto. Bastava ser verdadeiro. Bastava ser um abraço...
Escrito por Izilda às 10h55 [ ] [ envie esta mensagem ] Diferenças... Eram completamente diferentes. Tinham histórias de vida diferentes, Origens diferentes, Condições, referências, Gostos e idades diferentes. No entanto, se amavam... E isso os fazia iguais. Escrito por Izilda às 13h18 [ ] [ envie esta mensagem ] Segredos Ultimamente, não ousava mais escrever uma só linha. Vontade não lhe faltava. E idéias tinha de sobra. Podia-se até dizer que vivia a estação da fartura. De fato, tudo à sua volta borbulhava na excitação da novidade e na intensidade de seu envolvimento com a vida. Estranhamente, porém, era-lhe impossível expressar qualquer palavra. Perdida nesse labirinto fervilhante, buscava guarida apenas entre supostos segredos que escondia de si mesma. Por isso mantinha-se muda. Não podia se trair. Escrito por Izilda às 12h47 [ ] [ envie esta mensagem ] Colheita
Escrito por Izilda às 19h01 [ ] [ envie esta mensagem ] Desejos
Escrito por Izilda às 23h04 [ ] [ envie esta mensagem ] A pessoa certa
Escrito por Izilda às 11h54 [ ] [ envie esta mensagem ] Tempos antigos
Escrito por Izilda às 17h46 [ ] [ envie esta mensagem ] Viagem
Escrito por Izilda às 09h04 [ ] [ envie esta mensagem ] Piquenique
Escrito por Izilda às 15h43 [ ] [ envie esta mensagem ] Quadro
Escrito por Izilda às 11h13 [ ] [ envie esta mensagem ] Reencontro...
Escrito por Izilda às 20h33 [ ] [ envie esta mensagem ] Trajetória... Os dias seguiam-se velozes e ela se via totalmente embolada na roda do tempo. Era impossível pretender detê-lo. Resoluto e misterioso, arrastava-a por caminhos sempre novos, sempre desconhecidos...algumas vezes temerários, outras vezes belos e até seguros, mas, ainda assim, sempre por inaugurar, com todo o sofrimento da estréia. Nenhum segundo era igual ao outro e, mesmo parada, dormindo, ou negando-se a prosseguir, sabia-se em constante movimento. Demorou muito para entender que era assim e pronto. Porém, o mero vislumbre dessa compreensão, já foi bastante para lhe amaciar os passos. E quando, enfim, optou por entregar-se sem reservas à vida, sentiu que ganhava asas de borboleta...
Escrito por Izilda às 11h11 [ ] [ envie esta mensagem ] E, quem sabe, quantos outros verões...
Escrito por Izilda às 15h52 [ ] [ envie esta mensagem ] ESPERA
Escrito por Izilda às 18h52 [ ] [ envie esta mensagem ] Prazo de validade...
Escrito por Izilda às 11h43 [ ] [ envie esta mensagem ] TRILOGIA DO QUERER
Escrito por Izilda às 08h16 [ ] [ envie esta mensagem ] Cronos
Escrito por Izilda às 11h06 [ ] [ envie esta mensagem ] ALIEN-AÇÃO...
Escrito por Izilda às 11h45 [ ] [ envie esta mensagem ] Gestação
Escrito por Izilda às 11h18 [ ] [ envie esta mensagem ] Desobrigações
Escrito por Izilda às 16h03 [ ] [ envie esta mensagem ] Confissões de adolescente
Escrito por Izilda às 00h22 [ ] [ envie esta mensagem ] Mãos...
Escrito por Izilda às 00h59 [ ] [ envie esta mensagem ] Morte anunciada
Escrito por Izilda às 19h27 [ ] [ envie esta mensagem ] Insônia
Escrito por Izilda às 10h34 [ ] [ envie esta mensagem ] O vento O vento da noite varou meus braçosE trouxe o rio de águas claras E trouxe o olhar e o sorriso. O vento da noite me trouxe o ar e o paraíso.
O vento da noite varreu meus sonhos E trouxe o mar e a distância E trouxe a dor e a tempestade. O vento da noite trouxe o caminho pela metade.
A voz do vento veio avisar Que verga e vinca a existência vã Que, por ser noite, traz o lamento, Mas, por ser vento, traz a manhã... Escrito por Izilda às 21h38 [ ] [ envie esta mensagem ] Agradecimentos...
Escrito por Izilda às 16h33 [ ] [ envie esta mensagem ] Notícias sobre a vida...
Escrito por Izilda às 09h58 [ ] [ envie esta mensagem ] Domingo de Páscoa...
Escrito por Izilda às 09h45 [ ] [ envie esta mensagem ] Mora na Filosofia...
Escrito por Izilda às 10h58 [ ] [ envie esta mensagem ] Pedaços de manhãs.
Escrito por Izilda às 15h40 [ ] [ envie esta mensagem ] Em São Paulo
Escrito por Izilda às 20h32 [ ] [ envie esta mensagem ] Bom dia, mulher... Deu bom-dia ao espelho. Ali estava ela, fiel amiga, no diálogo mudo de todas as horas. Até que não estava mal: ainda de pé, ainda sorrindo, ainda sonhando... Conferiu-lhe os traços, os sulcos, os dentes e, zombeteira, agitou os braços. Foi plenamente correspondida. Nos últimos tempos, depois que os filhos cresceram, passaram a se conhecer cada vez melhor. Acolhiam-se, faziam planos, trocavam confidências e receitas, divertiam-se, fazendo comentários irônicos ou engraçados acerca de tudo... e de todos! Cumplicidade total. Esse era, no momento, seu grande amor. Essa, a mulher que, ao longo dos anos, aprendera a respeitar. Olhou-a longamente, num misto de admiração e ternura. Depois, ajeitou-lhe os cabelos e, sentindo-se melhor do que nunca, convidou-a para o café da manhã... Escrito por Izilda às 06h58 [ ] [ envie esta mensagem ] Vendavais...
Escrito por Izilda às 10h33 [ ] [ envie esta mensagem ] Cinderela O homem que amava ainda não batera à sua porta, mas ela o sabia a caminho. Passava seus dias esperando por ele, num doce compasso em que o sonho e a realidade se fundem em única imagem. Deixava o leite derramar, tropeçava em suas mil saias, ensaiava no espelho seu melhor sorriso. Queria que ele a encontrasse bonita. Queria que ele a encontrasse mulher. Queria que ele a encontrasse bem assim como era, e, entre flores e estrelas, fizesse dela rainha - Cinderela coroada, com direito a sapatinhos de cristal, lindas valsas, alvos lençóis e muitos beijos de amor. O homem que amava vinha chegando de mansinho. Ela o sabia. Ouvia-lhe os passos na solidão de suas noites, nas confidências à lua, no murmúrio do mar... Sabia, pelos arrulhos dos passarinhos, que ele não tardaria. Por isso, enfeitava-se de sedas e rendas, perfumava os travesseiros e retocava o batom. Depois, punha-se no portão, toda sorrisos, só pensando naqueles olhos profundos, que lhe diriam o quanto valera a pena esperar...
Escrito por Izilda às 09h44 [ ] [ envie esta mensagem ] No Egito ![]() Escrito por Izilda às 08h15 [ ] [ envie esta mensagem ] No Egito Meus olhos ensolarados enfeitaram-se de hieroglifos e de deuses, de histórias de amor e de luta e de duros perfis. Andei por paisagens áridas, comi tâmaras frescas e emocionei-me com a riqueza das lendas e o milagre da sobrevivência em condições tão adversas. Impressionou-me a genialidade dos cálculos, o domínio perfeito da técnica e, principalmente, a capacidade humana de se perpetuar através dos tempos. Em cada gota do Rio Nilo, em cada grão de areia do deserto, em cada rosto queimado dos descendentes núbios, a História estava ali presente. Agradeci à vida o privilégio de estar diante de tantos monumentos colossais: as pirâmides de Gizé, guardadas pela imortal Esfinge há mais de quatro mil séculos; as grandiosas colunas de Karnak; os emocionantes templos de Luxor (a antiga Tebas),de Edfu, Komombo e, principalmente, o tesouro arqueológico de Abu Simbel. Chorei com a história de amor de Ramsés II e Nefertari. O Cairo, desordenadamente sujo e pobre, com seus prédios inacabados e seus carros caindo aos pedaços, ofereceu-me a magia dos aromas difusos, de haxixe e especiarias. Dentre tantas outras preciosidades existentes no Museu do Cairo, meu deslumbramento foi total ao me deparar com a máscara de ouro maciço do faraó-menino, Tutankamon e com todas as jóias que compunham sua câmara mortuária. No Khan El-Khalili, famoso mercado local, exercitei a valer a arte de pechinchar e fiz negócios incríveis! Na verdade, nem eu mesma posso acreditar como pude comprar tantas quinquilharias inúteis, pelo simples prazer de negociar. Apesar das péssimas condições de higiene e saúde, os egípcios se mantém alegres e receptivos e, de um modo geral, são muito galantes com as mulheres. Nunca me senti tão elogiada como ali, especialmente, por meu pendor para barganhas, que, por certo, vem de meu sangue árabe. Encantou-me também a fé inabalável desse povo, fervorosamente ajoelhado nas ruas, nas lojas, nas mesquitas e até nos barcos, a cada chamado para a prece a Allah. Ali, todas as pessoas temem realmente a seu Deus e essa devoção resulta numa evidente diminuição das ocorrências de roubo e violência urbana. Não demorei a me acostumar à visão de mulheres - algumas cheias de filhos, caminhando pelas ruas, inteiramente cobertas, e de homens, em trajes típicos, jogando gamão nas calçadas ou fumando narguile entre amigos. E embora, no início, eu tenha ficado alucinada pela caligrafia ininteligível, fotografando, incansavelmente, placas de sinalização, anúncios e chapas de carros, fui, aos poucos, incorporando aquelas "cobrinhas" à paisagem local. E, aí, minha diversão passou a ser identificar cada propaganda ocidental em árabe, como por exemplo as dos invencíveis campeões de marketing, Coca-Cola e McDonald's. Ah! Como eu me diverti com as danças e canções típicas! Os batuques contagiantes faziam meu coração vibrar. E mesmo só bebendo água mineral, em razão da deficiência no saneamento básico, regalei-me com as comidas típicas, frutos secos e sementes. Não parei um minuto. Em pleno carnaval brasileiro, eu realmente atravessei o deserto do Saara. Vi beduínos, núbios, a grandiosidade do passado e as dificuldades do presente. Banhei pés e olhos emocionados no Mar Vermelho, no Golfo de Suez, na Represa de Assuan, no Lago Nasser, no Rio Nilo... Andei de camelo, de faluca, de navio, de avião, de ônibus, de carro e, muito, a pé. No Egito, entre papiros, sarcófagos e múmias, eu me senti inteiramente viva... Escrito por Izilda às 18h32 [ ] [ envie esta mensagem ] Antonio... ![]() Escrito por Izilda às 11h36 [ ] [ envie esta mensagem ] Antonio
Escrito por Izilda às 17h06 [ ] [ envie esta mensagem ] Viagem
Escrito por Izilda às 21h10 [ ] [ envie esta mensagem ] Salva por um Cão Quando o trânsito parou, ocasionalmente, na Avenida Liberdade, seu olhar descomprometido pousou nos dois mendigos deitados na soleira do imponente prédio da Casa de Portugal. Eram um homem e uma mulher, de idade e identidade desconhecidas, tão sujos e maltratados pela sorte, que, apenas vagamente, lembravam sua condição de seres humanos. Uma única nota destoante, no meio daqueles escombros: o cachorro magro, de olhos meigos e doces, que, embora imóvel como seus companheiros de infortúnio, ainda se encontrava inteiramente preservado. Simpatizou de imediato com o cão e teve vontade de afagá-lo. Mas logo desviou seu olhar para o homem, que mais parecia um cadáver contraído entre secretos pensamentos e ossos aparentes, completamente alheio às buzinas dos carros e às pessoas que passavam pela rua. A mulher não. Embora também magra e encolhida, ela acompanhava o movimento com arregalada curiosidade, como se dele tirasse o único alento para viver. E a imaginação da moça, protegida pelo conforto de seu carro, voava longe para adivinhar que tipo de sentimento provocava naquela mulher aquela observação atenta. Por acaso, o que via lhe causaria medo? Algum tipo de revolta? Ou apenas o inconseqüente prazer da mera diversão? Dali de sua redoma, a moça podia conjeturar à vontade, tirar conclusões, proferir julgamentos... Porém, num certo momento, a mulher acabou descobrindo aqueles olhos invasores que ameaçavam sua frágil intimidade. Baixou imediatamente a cabeça. A moça também. Que espécie de pudor era aquele que as impedia de vasculhar abertamente suas diferenças? Que estranha timidez as fazia corar e as obrigava a desviar seus olhares? Nenhuma responsabilidade tinham por seus destinos tão diferentes... (será mesmo?). A moça nada sabia sobre aquela mulher. Talvez fosse mais jovem do que ela, mais generosa, mais sábia... Ou, talvez, não. Poderia ser mesmo até alguém desprezível, que bem merecesse aquela sina... (como se alguém pudesse merecer aquela subvida de farrapos!). O que saberia dela aquela pobre infeliz? Por que não conseguia encará-la? O homem continuava ali, ao lado do cão, jogado como um pacote amarrotado. Mas a presença acusadora daquela mulher calada a incomodava de um jeito...! Seriam seus olhos inquietos, que mendigavam alguma resposta para tanto abandono? Continuavam se olhando de esguelha. E agora era a moça que já não suportava a constrangedora sensação de invasão. O que estaria pensando sobre ela aquela mulher? Que juízo faria de sua acintosa existência? Se quisesse, poderia até agredi-la, matá-la... (será que teria forças?) Por um segundo, até desejou isso para não continuarem assim, indefinidamente paralisadas pela pungência daqueles olhares penetrantemente fugidios. Porém, o tráfego, felizmente, começou a avançar e se encarregou de desfazer aquela insuportável tensão. À moça, antes de se entregar à total indiferença de seu caminho, restava uma difusa sensação de culpa e de impotência. Ainda podia ver, com um ligeiro constrangimento, aqueles cabelos desgrenhados pelo espelho retrovisor, até que percebeu que o cachorro aproximou-se da pobre mulher e, carinhosamente, começou a lhe lamber as faces... Escrito por Izilda às 09h46 [ ] [ envie esta mensagem ] Telemarketing...
Escrito por Izilda às 21h40 [ ] [ envie esta mensagem ] Pausa para brincar...ou aliterando P e B Passeando, bem emperiquitada, a Pausa, deparou-se com o pobre do B, abatido e pesaroso, batendo à porta do P, para pedir permissão para pisar na Praça. Ela sabia que bastava uma piscadela e um palavrear bonito para balançá-lo um pouco e, sem pestanejar, botou espertamente a boquinha no trombone. - Buenas, bonitão! Botando banca nessa pose blasé? - Buenas, princesa! Eu bem que precisava botar uma banca. Porém, minhas barbas brancas e meu epíteto de plácido bonachão me impedem de me aproximar de pessoas importantes como o benemérito P. - Bem que percebi que seus problemas pessoais o impedem de abordar peremptoriamente o palhaço do P. Pára de bancar o passivo. Por que pensa que o P é uma pessoa especial? - Porque o P é um político batuta e competente, permanentemente parabenizado por seu trabalho. Sabia que ele brindou o povo com um parque público, bem bonito, para os pequenos peraltas do bairro? - Pois bem! Pare de se depreciar, boboca! Parece óbvio separar pedaços do bairro para os pirralhos brincarem bastante! Os parques e as praças pertencem ao povo e não podem parecer propriedades do sabichão do P, que só brindou a população com esses equipamentos públicos por beirar sua obrigação! Ele é pago pelo povo para botar a cabeça para trabalhar. Pense a respeito! - Bem... prometo pensar bastante sobre o problema... mas, passando à parte principal, parece que você me apelidou de "bonitão", balbuciou o B, abaixando a cabeça, ruborizado. - E parece que você me apelidou de "princesa", completou a Pausa, piscando voluptuosamente. - Po...poderíamos bater um papo na padaria, bebericando um bom "Porto" ou uma bebida especial? Propôs o B, titubeante. - Combinado! Lá poderemos também pedir uns pasteizinhos ou uns bolinhos de bacalhau. Pegue no meu braço e me acompanhe, proclamou a Pausa. E, bem espertinha, complementou: -Para brindar, pode esperar que roubarei um belo beijo apaixonado... Porém, o P, bem aborrecido, abominando tal papinho malparado, abriu abruptamente a porta e acabou batendo boca com a Pausa, que proferiu palavrões impronunciáveis. A princípio, o B bambeou um pouco, mas depois, passivamente, parou de pé, petrificado. A Pausa, possessa, pegou a bolsa e a sombrinha e partiu para o primeiro boteco do pedaço, onde bebeu umas batidas de carambola, brindando à sua própria beleza e bravura. Depois, bastante embriagada, acabou nos braços do primeiro Parágrafo que passou pelas bandas do Bixiga ... Escrito por Izilda às 09h03 [ ] [ envie esta mensagem ] |
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